30/03/2008 | Assim é possível compreender

O mês de março certamente é o mais aguardado pelos fãs da Fórmula-1. Não é para menos: depois de quatro meses com os carros só testando, a saudade dos GPs é inevitável. Talvez até na ânsia para matar logo esta saudade, a mídia em geral dá tanto destaque aos treinos de pré-temporada.

 

Por mais que todo mundo saiba que “treino é treino, jogo é jogo” também na F-1, a imprensa especializada do mundo inteiro sempre coloca em destaque: “Ferrari dá show em Barcelona”. “Hamilton voa baixo em Valência”. “Alonso impressiona com nova Renault”, etc...

 

Claro que se deve prestar atenção nos testes (até para conferir o visual dos novos carros, de conceitos inovadores, novidades aerodinâmicas etc), mas eles são vagos demais para interpretar a verdadeira posição das equipes. Exatamente como nos treinos de sexta-feira dos GPs.

 

Isso porque cada equipe tem o seu programa de testes, o nível de combustível e o uso de pneus novos determinam a performance de cada um. Por isso, o segredo para analisar bem uma equipe na pré-temporada é acompanhar o dia inteiro do treino – e não apenas o resultado final, como costumam fazer.

 

Vendo por este ângulo, acredito que a Ferrari tem apresentado a melhor performance para começar 2008 na frente. Mas não apenas por estar em primeiro lugar em alguns treinos. O que mais chama a atenção para o bom equilíbrio do carro da equipe italiana é o desempenho e a consistência durante as simulações de corrida.

 

Nesta situação, não dá para disfarçar a condição da equipe. O carro precisa fazer no mínimo 20 voltas seguidas para simular parte de um GP. Cada prova tem aproximadamente 60 voltas e dois pitstops. Assim, o piloto faz três trechos de 20 voltas nessas simulações.

 

Por isso, mesmo saindo com pneus novos, o carro estará de tanque relativamente cheio para agüentar um terço da prova (20 voltas). Desta maneira, dá para fazer algumas contas e descobrir quantos quilos (na F-1 não se fala em litros; a proporção é aproximadamente 1 kg = 1,1 litro) o carro leva.

A capacidade total de um tanque é cerca de 90 kg e o consumo médio é de 2.5kg por volta. Assim, para simular as 20 voltas, o carro deve ter no mínimo 50 kg de combustível. Inclusive, este é o nível geralmente utilizado pelas equipes de ponta nos testes, mesmo quando não simulando um GP.

 

Mas o peso do combustível faz tanta diferença assim no tempo? Sim. Em média, a cada 10 kg a mais de combustível, o carro perde, na média, 0s3s por volta (dependendo, claro, da extensão de cada circuito). Assim, há pelo menos 1s2 de diferença entre o tempo de um carro que simula classificação (uma ou duas voltas rápidas), já que, nesta condição, leva apenas 10 kg de combustível (contra os 50 kg utilizados na simulação de um GP). Também, entre 1s a 1s5 é a diferença média entre o pneu novo e o usado em uma volta.

 

Com tantas variáveis, fica fácil entender porque algumas equipes médias e pequenas aparecem “do nada” na ponta de um teste. Afinal, o marketing também faz parte do jogo, principalmente no começo do ano, para impressionar os patrocinadores (atuais, novos ou potenciais).

 

Tecnicamente, os engenheiros e pilotos destas equipes sabem que estão atrás dos times de ponta, mas, mesmo não sendo uma realidade, esse tipo de resultado é importante para o lado comercial do time. Em compensação, os times de ponta preferem esconder o jogo, evitando usar pouco combustível, principalmente com pneus novos.

 

Desta forma, se considerarmos 1s2 à 1s5  por conta de diferença de combustível, e justamente no mesmo momento utilizando pneus novos, Toro Rosso, Super Aguri e até Force India podem se aproximar do topo nos testes de pré-temporada. E isso não significa que, quando chegar a vez da disputa do GP da Austrália, elas farão frente à McLaren e Ferrari.

 

Resumindo, o importante é entender e analisar a performance das equipes baseados em fatos técnicos e não apenas nos tempos de volta no final de um dia de testes, caso contrário, você estará sempre criando expectativas falsas. Para o fã do automobilismo, nada melhor do que estar sempre bem informado sobre a F-1, principalmente com informações mais complexas e de dentro da pista.