25/02/2008 | Condução Própria

Dizem que o piloto é um sujeito que está sempre lutando contra o cronômetro. De fato, a cada volta, o objetivo é sempre um só: ir cada vez mais rápido, baixando o tempo nem que seja alguns milésimos de segundo.


Pois bem, fora das pistas, a luta contra o relógio também faz parte do
cotidiano dos pilotos. Não é para menos. A rotina de piloto de F-1 é feita de viagens internacionais, testes, visitas à fábrica, compromissos com
os patrocinadores, imprensa e o que mais a agenda comportar.


A fim de economizar tempo, os pilotos não poupam esforços nem dinheiro. Assim, o melhor amigo de um piloto na temporada de F-1 acaba sendo o seu próprio jatinho. Pode parecer extravagância ou coisa de “novo rico”, mas o caso de Eddie Irvine ilustra bem essa opção. 


No circo da F-1, o irlandês sempre foi conhecido como “mão-de-vaca”, mas não a ponto de abdicar de seu Falcon 10. Na época em que corri com ele na Jaguar, não resisti a fazer a pergunta: como podia um muquirana como ele pagar milhões em um avião?
A resposta do Eddie foi convincente. “Nada vale mais do que o meu tempo. Já fiz as contas de quanto tempo jogamos fora entre check-in, despacho de
bagagem, raio x, fila para embarque, atrasos de partida, imigração, espera
pelas bagagens... Como viajamos semanalmente para testes e corridas, em uma carreira de 10 anos de F-1, você pode gastar 10% do tempo nesse tipo de atividade”. É isso mesmo, um ano jogado fora a cada década! Com o avião particular, você chega 15 minutos antes de decolar, não precisa de check-in e na chegada tem desembarques separados sem fila para imigração e bagagem. O resumo da operação é o inverso do famoso dito: o caro sai barato, por causa de economia de tempo de um profissional que ganha milhões de dólares por ano. De fato, o raciocínio faz sentido, pois, além dos compromissos profissionais, pilotos também fazem viagens pessoais para voltar para seus respectivos países, uma vez que a maioria mora em Mônaco ou Suíça, por uma questão de isenção fiscal.


É claro que sendo o Eddie um playboy de marca maior, ele não perdia a
oportunidade de utilizar o “brinquedinho” para alguns luxos extravagantes.
Exemplo: sair de um teste em Silverstone às 18h, jantar em Paris com uma de suas “amigas” modelos e retornar para a Inglaterra no mesmo dia para treinar na manhã seguinte... Digamos que, além de economia de tempo, o jatinho também oferece boas mordomias para um piloto de F-1, especialmente se você segue a escola Irvine de ser!


Claro que tanto luxo não está isento das intempéries da aviação, como o
acidente com David Coulthard em 2000. O avião dele enfrentou problemas na hora do pouso e bateu na pista assim que tocou o solo. Os dois pilotos
morreram, mas David e sua namorada saíram ilesos.


Não são todos os pilotos que tem aviões próprios. Alguns alugam aviões
apenas para atenderem os GPs (às vezes, o meu caso) ou continuam em vôos
comerciais de executiva ou primeira classe.


Para fazer a temporada completa, no entanto, o melhor é mesmo contar com
avioes de primeira linha, como o Falcon 2000EX de Michael Schumacher, o  Embraer Legacy de Rubens Barrichello ou ainda o Piaggio P180, opção de Felipe Massa. Qualquer um desses modelos são customizados de acordo com o desejo do piloto. Os interiores mais parecem uma suíte bacana de hotel, onde a gente pode ir vendo filmes, conversar confortavelmente, dormir em uma cama de verdade ou até mesmo jogar videogame. Nem parece que estamos viajando.


Comum entre os pilotos, condução aérea própria não é privilégio apenas de pilotos. Alguns chefes de equipe também possuem o seu próprio avião como Frank Williams, Ron Dennis e o próprio Bernie Ecclestone que, por sinal, sempre convida Jean Todt nas viagens a todos os GPs. Vale lembrar que a disputa na F-1 ocorre também fora da pista, uma spécie de competição vaidosa para saber quem tem o avião mais moderno, maior, mais rápido e com maior autonomia... E adivinhe quem é que leva vantagem nessa competição? Ele mesmo: Schumacher, com seu Falcon 2000EX.

Necessidade ou luxo, o jato particular é a cara da F-1. Afinal, é o esporte em  que ganhar tempo é a essência de tudo. Dentro ou fora da pista, custe o que custar.