19/10/2007 | A grande polêmica

Uma das maiores questões que envolvem a F-1 é se os carros atuais são mais fáceis ou mais complexos de pilotar que os de antigamente. Paixões e preferências colocadas de lado, uma coisa é certa: o comportamento das máquinas mudou tanto quanto o da sociedade ao longo dos anos. Se elegermos os carros que competiram entre os anos 70 e 80, por exemplo, veremos o quanto eles eram mais lentos que os carros de hoje. Principalmente em freadas e curvas, pois na reta a velocidade já era semelhante. Sob os limites impostos pela tecnologia disponível, os carros daquela época tinham muito menos pressão aerodinâmica, os discos de freio eram de aço - ao invés dos eficientes freios de carbono usados atualmente, os chassis não eram tão leves e resistentes como os de fibra de carbono, os pneus eram bem menos aderentes e não existia a parte eletrônica como câmbio semi-automático e controle de tração, entre outros avanços.

Em conseqüência disso, os engenheiros buscavam um acerto de suspensão mais macio para melhorar a aderência dos carros na parte mecânica, uma vez que pressão aerodinâmica, pneus e outros componentes tinham lá seus limites. Porém, nunca é demais lembrar que com uma suspensão com molas e amortecedores moles, a transferência de peso é excessiva, prejudicando o equilíbrio, um fator crítico num F-1.
Para compensar essa característica, os carros exigiam um modo suave de pilotagem. Um grande exemplo desse estilo foi o tri-campeão Jackie Stewart. Conheci-o muito bem, quando corri por sua equipe na F-3 Inglesa e pude gravar seus ensinamentos. Ele insistia em dizer que para se manter um carro bem equilibrado, era importante ser muito suave no volante e nos pedais; acelerar e desacelerar de forma constante (igualmente no freio) e nas trocas de marcha. Para se ter uma idéia, Jackie organizava uma competição entre seus pilotos levando um carro de turismo para pista. Na cabine ele colocava um prato de sopa com uma bolinha de tênis no seu interior. Ganhava a competição aquele piloto que fizesse a volta mais rápida sem deixar a bolinha cair. Adivinhe quem vencia sempre? Ele mesmo, Jackie era sempre o campeão, pois esse era o estilo de pilotagem necessário nos anos 70.

Hoje, os carros são basicamente uma "asa", e assim, é importante manter uma altura constante em relação ao solo para extrair o máximo da eficiência aerodinâmica. Os carros são bem mais duros, com suspensões rígidas e com transferência de peso menor, permitindo movimentos mais bruscos no volante e nos pedais, característicos de uma pilotagem mais agressiva.


O F-1 de hoje exige uma tocada agressiva, pois os freios de carbono funcionam em uma temperatura média de 700 ºC. Ou seja, para levar os discos de freio a essa temperatura, o piloto não pode ser progressivo. Ao contrário, sua atuação sobre o pedal deve ser mais pesada para elevar essa temperatura o mais rápido possível. O acelerador também dispensa sutileza, pois, com o controle de tração, a pressão sobre ele acaba sendo 8 ou 80, não havendo necessidade de se preocupar com a progressividade para que as rodas não patinem.

Outra grande diferença dentro da pista é quanto a influência do piloto para acertar o carro durante a prova, pois antigamente os carros não dispunham dos aparatos eletrônicos da F-1 atual. Agora o piloto tem a obrigação de cuidar do acerto de seu carro durante a corrida, pois existe uma grande diferença no equilíbrio do carro em relação aos pneus novos no início da prova para os pneus usados do final, tanque cheio para tanque vazio, mudança no clima como em caso chuva e outros fatores. Cabe ao piloto interpretar as circunstâncias e atuar em comandos como controle de tração, freio motor e diferencial. Tudo isso sob a vigilância constate da equipe e com o auxílio da telemeteria. No passado, durante as provas, ao piloto era reservado apenas ajustar de dentro do carro era equilibrio dos freios entre as rodas dianteiras e traseiras.

Se os carros antigos não tinham os recursos atuais que ajudam o piloto a extrair o máximo desempenho, a contrapartida disso é uma busca cada vez mais feroz dos limites, sendo esse o maior desafio para os pilotos modernos

Polêmicas e tecnologia à parte, uma coisa é certa: grandes pilotos como J. Manuel Fangio, Jackie Stewart, Ayrton Senna e Michael Schumacher serão sempre "gênios" dentro de um carro de corrida, independentemente das características dos e carros e da tecnologia de disponível em cada época.