19/10/2007 | E as ultrapassagens?

Você também sente falta de disputas e ultrapassagens nas corridas de F-1? Será que falta arrojo aos pilotos ou existe mesmo uma dificuldade para realizar essas manobras?

 

Para encontrarmos a resposta é bom lembrar que um carro de F-1 depende muito da pressão aerodinâmica para conseguir aderência e estabilidade. As asas, flaps, defletores, difusores e assoalho são as principais ferramentas da  aerodinâmica e são tão eficientes que a 200km/h podem gerar um “downforce” de até 2.000 quilos.

 

Essa performance depende 100% do fluxo de ar que passa pelo carro. No desenvolvimento aerodinâmico os engenheiros procuram um fluxo de ar constante e homogêneo, utilizando um túnel de vento onde temperatura, pressão e fluxo do ar são controlados.

 

Na pista, principalmente em situações de corrida em que se deve  aproximar do seu concorrente para conseguir uma ultrapassagem, a situação é completamente inversa. O carro que segue à frente destrói o fluxo de ar do que vem atrás, pois o ar que passa pelo seu difusor e asa traseira sai com muita turbulência e afetando especialmente a asa dianteira de seu concorrente.

 

Por isso escutamos muita reclamação quando o piloto, que passou uma corrida inteira preso no tráfego, diz que o carro saia muito de frente quando seguia alguém de perto. É justamente porque a asa dianteira deixou de funcionar por sofrer um fluxo de ar “sujo” do carro que andava a frente. Aliás, esse efeito atrapalha o carro que vem atrás e em busca uma ultrapassagem com uma distância de até 50 metros. Ou seja, não precisa estar visualmente “colado” para sofrer perda no desempenho aerodinâmico.

 

Outro ponto importante é o traçado de cada pista, que pode ajudar ou atrapalhar nas alterações de posições. Muitos acham que basta uma longa reta para que as disputas aconteçam, mas não é bem assim. Obviamente uma grande reta é importante, mas é fundamental que a curva que anteceda essa reta tenha características que não atrapalhem a pressão aerodinâmica do carro que vem atrás.

 

Um bom exemplo é no circuito de Barcelona, onde a reta dos boxes é longa, mas a curva que a precede é veloz (feita em 6ª marcha a 230 km/h). É um caso em que o desempenho aerodinâmico é fundamental e dificilmente um carro consegue seguir outro de perto. Já nos GPs disputados no circuito de Interlagos, não é raro se ver belas disputas na freada no “S” do Senna. Isso acontece por se tratar da da Junção (ponto que antecede a reta), uma curva lenta (2ª marcha a 110 km/h) onde o carro que vem atrás não perde muito desempenho por estar sofrendo um fluxo de ar turbulento. Também um final de reta com uma curva lenta, em que a freada seja forte, aumenta as chances de disputa.

 

Também a largura de cada pista influencia diretamente na possibilidade de uma ultrapassagem. Circuitos como Budapeste, na Hungria, ou mais acentuadamente Mônaco, parecem um labirinto de tão apertados. Quem não lembra da disputa entre Senna e Mansell nas ruas do Principado em 1992? O inglês tinha um carro muito mais veloz, mas não conseguiu sequer ficar lado a lado com o brasileiro.

 

Algumas mudanças estão sendo estudadas no regulamento para os carros não dependerem tanto da parte aerodinâmica. Asas menores, volta dos pneus slicks e outras idéias estão sendo discutidas entre a FIA e as equipes. Uma coisa é certa. Todos sabem que o maior atrativo para público e telespectador são as disputas e ultrapassagens. Às vezes, mais atraentes ainda quando não bem executadas “misturando tintas” entre os carros e levantando a torcida.