Leia aqui as colunas escritas por Luciano Burti para a revista Quatro Rodas.
- 15/04/2010 | De volta aos melhores tempos
- 17/02/2010 | O retorno do bom (e velho?) Schumacher
- 04/12/2009 | CASA NOVA, CARRO NOVO
- 04/12/2009 | O IMPORTANTE É COMPETIR
- 13/07/2009 | Temporada temporã
- 02/03/2009 | Prova mais difícil
- 14/02/2009 | Férias corridas
- 09/12/2008 | Deixou ou não?
- 17/11/2008 | Por dentro de um F-1
- 10/10/2008 | Cobrança no fim de semana
- 08/10/2008 | Pista em festa
- 30/03/2008 | Assim é possível compreender
- 25/02/2008 | Condução Própria
- 19/10/2007 | A grande polêmica
- 19/10/2007 | Show de circo
- 19/10/2007 | E as ultrapassagens?
04/12/2009 | O IMPORTANTE É COMPETIR
Diante do desempenho apresentado por Luca Badoer como piloto oficial, em Valência e Spa-Francorchamps – na média, dois segundos mais lento por volta do que Kimi Raikkonen –, muita gente não entendeu a escolha da equipe pelo seu piloto de provas. Perguntas mais frequentes: afinal, depois de todos esses anos trabalhando juntos, será que a equipe não conhecia seu potencial? Como poderia ter contribuído no desenvolvimento dos carros com uma pilotagem tão longe do limite? Será que está lá apenas por ser italiano? Ou será que “perdeu a mão” por não disputar uma corrida há muito tempo?
Para buscar as respostas, temos de voltar ao início. Luca foi campeão da F-3000 em 1992 (Rubinho foi terceiro colocado nessa temporada). Em 1993, estreou na F-1 pela equipe Lola, passou pela Minardi e terminou sua carreira como piloto oficial na Forti Corse em 1996. Badoer disputou Grandes Prêmios por equipes pequenas, um dos motivos por não ter marcado nenhum ponto nessas temporadas. Mas em 1997 foi contratado como piloto de testes da equipe Ferrari para trabalhar no desenvolvimento dos carros. Assim, Luca esteve presente nos anos de ouro da equipe italiana, durante o período Schumacher, quando o alemão venceu sete vezes o título de pilotos e a equipe conquistou oito campeonatos de construtores.
Pude acompanhar o desempenho de Luca como piloto de testes e a confiança da equipe em seu trabalho. Entre 2002 e 2004, também como piloto de testes da Ferrari, lembro que a velocidade dele nunca foi questionada. Ele tinha velocidade a ponto de, em alguns treinos, andar em ritmo próximo ao de Schumacher. Por vezes liderou várias tabelas de tempo, ao compartilhar a pista com as outras equipes e pilotos de F-1. Errava pouco e tinha um ritmo constante. A essa altura você pode estar se perguntando: onde foi parar esse piloto?
Sem dúvida, esse perfil não cabe no piloto que assistimos em Valência e SPA, ou seja, lento, cometendo vários erros e não conseguindo fazer uma única volta com o ritmo constante. O motivo principal dessa perda de desempenho está na cabeça, no lado emocional, em forma de falta de confiança. Muitos falam que o preparo físico é fundamental para o desempenho do piloto de F-1, o que é verdade, mas eu sempre disse que psicologicamente o preparo é ainda mais importante. Acompanhando o primeiro treino oficial em Valência, reparei no Luca saindo dos boxes e olhando mais para os espelhos retrovisores do que para frente (tirava o pé para os outros carros passarem e só conseguiu completar uma volta acelerando na quarta tentativa). Aí percebi que dificilmente ele conseguiria um bom desempenho uma vez que a falta de confiança em si próprio era evidente. E não deu outra...
Quando relato a história da minha carreira para amigos ou em palestras, conto que decidi deixar a Ferrari em 2004 e vir para o Brasil disputar o campeonato de Stock Car. Isso porque eu não queria perder a minha motivação de ir para pista (pode soar para alguns como uma justificativa não convincente...). Descobri com o tempo que gosto mesmo é de competição e não apenas de pilotar carros de corrida. Eu estava com o melhor carro do mundo, mas em 95% do tempo testando sozinho com mais ninguém na pista, ou seja, não tinha a adrenalina e o desafio da competição. Então voltar às competições, mesmo em uma categoria tecnicamente inferior, foi fundamental para manter vivo o piloto que existe dentro de mim. O que ocorreu com o Badoer, provou que eu não estava errado. Deixar de competir faz o piloto perder desempenho, garra e superação, características presentes no seu DNA.
Em se tratando de esporte, competição é a alma do negócio. E o simples fato de estar no grid de uma prova de F-1 já é algo digno de respeito e admiração. São muito poucos aqueles que conseguem reunir técnica, conhecimento e equilíbrio físico e psicológico para fazer parte desse seleto grupo. Imagine para disputar a ponta, então.

