Leia aqui as colunas escritas por Luciano Burti para a revista Quatro Rodas.
- 15/04/2010 | De volta aos melhores tempos
- 17/02/2010 | O retorno do bom (e velho?) Schumacher
- 04/12/2009 | CASA NOVA, CARRO NOVO
- 04/12/2009 | O IMPORTANTE É COMPETIR
- 13/07/2009 | Temporada temporã
- 02/03/2009 | Prova mais difícil
- 14/02/2009 | Férias corridas
- 09/12/2008 | Deixou ou não?
- 17/11/2008 | Por dentro de um F-1
- 10/10/2008 | Cobrança no fim de semana
- 08/10/2008 | Pista em festa
- 30/03/2008 | Assim é possível compreender
- 25/02/2008 | Condução Própria
- 19/10/2007 | A grande polêmica
- 19/10/2007 | Show de circo
- 19/10/2007 | E as ultrapassagens?
09/12/2008 | Deixou ou não?
A pergunta que mais tenho escutado depois do GP Brasil é: afinal, Timo Glock deixou Hamilton passar ou não? Proponho analisarmos a situação antes de qualquer resposta.
Os principais pontos para um pneu ter boa performance é o desgaste, a calibragem e a temperatura. O desgaste é algo que muda de pista para pista, de carro para carro, mas sabemos que em Interlagos ninguém enfrentou grandes problemas com isso. A calibragem também varia um pouco, mas a pressão média de pneus é 19 libras quando quentes e em uso. Já a temperatura ideal para os pneus de pista seca é de 90C, justamente por isso são utilizados os cobertores de aquecimento uma vez que os pneus não oferecem boa aderência quando estão abaixo de 70C.
Esse foi o problema do Glock em Interlagos. Quando eu vi pela cabine de transmissão que começou a chover mais forte na última volta, fiquei de olho no piloto da Toyota porque sabia que seria difícil dele se sustentar na pista e manter a posição. Todos estavam de olho para ver se o Vettel se mantinha na frente do Hamilton, enquanto eu estava de olho lá atrás. E não deu outra: com a pista muito molhada, o inglês acabou ganhando a quinta posição e o campeonato.
Mas mesmo assim você pode estar pensando: “OK, pode ser que os pneus de pista seca não funcionam com a pista úmida ou molhada, mas será que o Glock não quis ajudar o Hamilton?” Bom, acho que se ele quisesse fazer isso seria muito mais fácil ele ter parado e trocado para pneus intermediários ou de chuva como todos fizeram. Ele estava na sétima colocação até começar a garoar, mas apenas ele e o Trulli não entraram para trocar pneus. Essa situação, mais a ultrapassagem do Vettel para cima do Hamilton, abriu a possibilidade de Felipe ser campeão. Então acho que devemos reconhecer o arrojo do Glock e de sua equipe em tentar algo que ninguém quis arriscar. Ele estava em um ritmo bom até cair a chuva na última volta e deu para analisar que aquele era o limite de velocidade do carro. O seu companheiro de equipe, o Trulli, virou no mesmo tempo que o Glock nessa última volta (Glock 1:44.731 e o Trulli 1:44.800), pois eram os únicos pilotos com pneus de pista seca. O piloto mais rápido no último giro foi o Rubinho, com pneus p/ pista molhada, virando na casa de 1:31.00.
E as dúvidas não pararam por aí, muitos ainda falaram “então não foi barbeiragem dele? Ele amarelou?” Digo que não, baseado em algo que já aconteceu comigo. Em janeiro de 2002, em Barcelona, no meu primeiro teste com a Ferrari, eu saia dos boxes pela primeira vez e de repente começou a chover. Aí em pensei “bom, deixa eu ir bem devagar porque não posso rodar na minha primeira volta estreando pela Ferrari”. Chegando na curva 3 a pista estava cada vez mais molhada, os pneus perderam temperatura e mesmo eu andando super devagar, acabei rodando. Parecia que eu estava em uma pista de gelo, impressionante como escorregava, mas por sorte eu não deixei o carro morrer e consegui continuar à caminho dos boxes. E para eu ver que não fui um barbeiro e que as condições eram dificílimas, acabei encontrando no final da volta o outro piloto de testes da Ferrari, Luca Badoer, na caixa de britas, pois também rodou pelo mesmo problema, então aprendi o quanto esses pneus não funcionam se não estiverem na temperatura ideal.
Um outro exemplo foi no final de 2003 em Fiorano, em pleno inverno europeu, com a temperatura abaixo de zero. Para complicar ainda mais, uma leve garoa deixava a pista úmida. Não conseguimos dar uma volta mantendo a temperatura e a aderência nos pneus. E olha que os pneus intermediários e de chuva já são projetados para funcionar em temperaturas mais baixas, por volta de 60C, mas se perder 50% dessa temperatura eles também deixam de ter aderência.
Saíamos dos boxes com os pneus devidamente aquecidos mas, como entre a saída da garagem e a primeira curva existe uma reta de uns 400 metros, ao chegar na freada, a temperatura dos pneus já estava baixa demais. Eu tentava fazer a primeira curva para ver se conseguia gerar algum aquecimento nos pneus, mas como a aderência já estava baixa eu não conseguia ter o atrito necessário para conseguir elevar a temperatura, impressionante. Tentamos de tudo. Aquecemos os pneus nos cobertores acima do ideal (chegamos até 110C que não é o correto), mas mesmo assim não foi possível. Depois de dois dias de espera acabamos recolhendo tudo e voltando para casa.
Mas voltando às questões sobre Interlagos, muitos disseram que o Kubica também estava com pneus de pista seca e mesmo assim virava mais rápido que o Glock no mesmo momento. Não foi bem assim, eu mesmo me enganei durante a transmissão quando vi o piloto da BMW andando mais rápido que o Hamilton e o Vettel, por isso achei que ele estivesse com um pneu diferente e para pista seca. De fato eu estava certo sobre o pneu diferente, mas era um pneu para pista de chuva e não o intermediário como os dois que disputavam a quinta colocação naquele momento.
Bom, acho que você já entendeu melhor a questão e garanto que foi isso mesmo, baseado em fatos técnicos e no meu conhecimento como piloto de F-1 vejo que o Glock não “tirou o pé” e fez o possível para brigar pela melhor posição, pensando em si mesmo, competição é assim. Aconteceu de chover mais forte na última volta e por isso ele teve dificuldades extremas, mas isso faz parte quando você decide arriscar. E não podemos dizer que ele errou, pois mesmo assim superou o Kovallainen, ganhando uma posição nessa estratégia e conquistando a sexta colocação no final da prova.
Mesmo assim, saiba que eu entendo as dúvidas e os questionamentos da torcida. Essa paixão é o lado que encanta quando sentimos a vibração e a energia positiva da torcida brasileira nas arquibancadas de Interlagos, e também quando sabemos da emoção dos que acompanham pela TV. Corridas são corridas e só terminam na linha de chegada. Não houve um vencedor e um perdedor em Interlagos, todos saíram ganhando. Pudemos presenciar a decisão de um campeonato mais eletrizante de todos os tempos. Ano que vem tem mais!

