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Em ano eleitoral, é comum dizer-se que eleitor tem memória curta: esquece episódios desabonadores dos candidatos, de promessas não cumpridas e até mesmo de quem foi merecedor de seu voto na eleição anterior. Mas não é só nas urnas que essa amnésia se manifesta: na F-1 o torcedor quase sempre julga a competência de um piloto baseado em um único critério: o último resultado.
Ao invés de fazer uma análise completa, com base técnica e apoiada em números e outros dados que ajudem a verificar a desempenho nas pistas, o fã e a própria mídia deixam a empolgação (ou a raiva) contaminar o julgamento.
Pergunte a Felipe Massa. No começo da temporada, ele foi duramente criticado pelas duas corridas sem marcar pontos, na Austrália e na Malásia. Diziam que ele “estava fragilizado”, porque o Kimi Raikkonen foi campeão no ano passado e a Ferrari estava trabalhando mais para seu companheiro de equipe... Massa já era considerado número 2. Para os mais alarmistas, já estaria sendo ejetado da Ferrari em favor de Sebastien Vettel...
Bastaram duas vitórias convincentes, no Bahrein e na Turquia, para que Felipe Massa voltasse a ouvir apenas elogios. O auge veio logo a seguir, com mais um primeiro lugar, desta vez na França, onde se tornou também o primeiro brasileiro a liderar o Mundial desde Ayrton Senna.
Foi o suficiente para que o entusiasmo ufanista norteasse os comentários: “esse ano com certeza é do Felipe”, “sabe como ninguém como lidar com a pressão”, “a Ferrari trabalha para ele, é mais querido pelos italianos”... Enfim, daria para encher a página inteira de tantos elogios que ouvi por aí, muitos deles dos mesmos que batiam sem piedade depois das más apresentações no começo do ano.
O mais incrível é que, no GP seguinte, com as várias rodadas de Massa em Silverstone, as críticas não só voltaram como já colocaram até sua capacidade e talento sob xeque. Colocam inclusive rótulos, como “Felipe não sabe guiar na chuva”. A ótima apresentação do piloto sob piso molhado, em Mônaco, neste ano, quando ele abria até 2 segundos por volta sobre seus adversários foram simplesmente deletadas da memória.
Na minha opinião, de fato, a corrida de Silverstone foi um final de semana daqueles para Felipe esquecer. Mas todos os esportistas têm estes dias. E acredito que as condições de chuva extrema aliada a uma Ferrari que não tinha o acerto ideal produziram uma combinação que não se encaixa no estilo arrojado de pilotagem do Felipe. Faltou uma tocada mais cuidadosa? Acho que sim, mas é este mesmo arrojo que faz dele um cara capaz de ganhar GPs como os de Bahrein, Turquia e França.
Esse arrojo é um dos pontos fortes de Felipe. O lado técnico não é uma característica natural dele, mas o brasileiro vem se desenvolvendo de forma impressionante desde que entrou na Ferrari, onde teve como referência ninguém menos que Michael Schumacher.
Cobrança no fim de semana
O alemão, por sinal, é um dos raros pilotos que tiveram uma carreira sólida a ponto de nunca ter seu talento questionado, nem mesmo diante de seus erros -- claro, sem entrar no mérito dos acidentes polêmicos. Senna também foi um dos raros casos em que o piloto deixou de ser “tão bom quanto seu último resultado”. Pelo visto, só mesmo sendo um grande campeão ou gênio do esporte para não sofrer com o julgamento imediatista.
Não pense que é só o torcedor brasileiro que tem memória curta, que o diga Lewis Hamilton. No ano passado, ainda estreante, ele era considerado um piloto frio, muito bom sob pressão, mas os erros no final da temporada e, depois, as más apresentações no Canadá e na França neste ano já colocaram o inglês na berlinda. Isso até vir Silverstone e... Lewis ser novamente coroado!
O mais acertado é analisar as características de cada piloto. Uns são mais técnicos, outros mais arrojados, uns andam bem na chuva, outros nem tanto, mas é preciso saber distinguir as qualidades e os defeitos de cada um para não desmerecer a capacidade do piloto. E entender que às vezes ele passa por uma fase ruim, falta de sorte, ou, mais provável, ausência de um carro mais competitivo.
Afinal, como sempre digo, a máquina é responsável por 70% da performance de cada piloto. Com um equipamento competitivo nas mãos, fica muito mais fácil administrar a pressão, mesmo não estando em um dia bom. O Hamilton no ano passado, por exemplo, mesmo em conhecer as pistas, conseguir ser facilmente o 4º colocado, realidade bem diferente do Nelsinho Piquet, que precisar pilotar muito bem pra conseguir ficar no top-10.
Além disso, erra-se muito menos tendo um carro bom nas mãos, porque ele tem mais aderência e mais equilíbrio. Comprovei isso na prática: em 2001, com a Prost, sofri várias saídas de pista porque o carro era muito difícil de pilotar, enquanto na Ferrari fiz três temporadas como piloto de testes, tendo percorrido mais de 30.000 km, e bati o carro apenas uma vez decorrente de um erro.
Por isso, aconselho sempre a deixar o imediatismo de lado quando se trata de corrida. Tampouco mudo de opinião (sendo mais otimista ou pessimista) depois de apenas um GP. Erros todos cometem, mas é preciso primeiro entender o que aconteceu, levando em conta as características de pilotagem, ver se essa é uma tendência do piloto ou se aquilo foi um fato isolado, as circunstâncias que aconteceram e o carro que ele está pilotando para depois julgar a capacidade. E, aí sim, eleger o seu piloto favorito. Como, aliás, um bom cidadão deveria fazer com seu candidato.

